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NÃO
Busquei no certo a explicação para o óbvio
Foi então, que descobri que o não, era a resposta pra tudo
Palavra insistida, mais falada na vida
Palavra final, mal falada e maldita
Mas o não, ao contrário do sim, é assim
Infeliz e audaz, mas capaz de mudar
Não chore
Não mexa
Não saia
Não volte tarde
Não traia
Não coma
Não abandone
Não corra
Não erre
Não morra
Alguns dizem que duas vezes o não dá sim
Dá sim, duas vezes não
Já disse um milhão de vezes que não
Ou não disse
Crendice, e o mais triste
Não é não voltar atrás
Mas sim, não te amo mais
Pois é, isso não dará certo
Não passará
E na Bíblia, o mais notório
A palavra que Deus mais escreveu por sua própria mão
O Não dos Dez Mandamentos
Mas ainda prefiro o não ao talvez
Ou talvez não.

O Menino e a Nota Musical

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Havia uma nota musical de nome DÓ que morava na oitava mais aguda. Ela era singela, harmônica e muito simpática. Sua voz era linda e encantadora, talvez a nota mais bela de todas as oitavas.
Certo dia apareceu um menino que experimentando todas as notas tocou em DÓ e ficou hipnotizado pelo som.
E assim ele fez, se pôs a tocar todos os dias esta mesma nota, batendo insistentemente até que o sono fosse mais forte do que ele. 
Passaram-se alguns dias, alguns meses, alguns anos, até que DÓ não conseguia mais alcançar o timbre de outrora, ficando com a sua voz rouca e entristecida.
Perdeu-se o encanto, perdeu-se a harmonia e consequentemente, perdeu-se o tempo. Agora, aquele menino de outrora, aprendeu que deveria ter tocado em todas as notas, pois faria do simples uma canção.
Toda a vez que aquele menino visita as oitavas e tenta encontrar a harmonia que se esconde em algum momento do passado, fica faltando aquela nota singela, e assim se nota a falta do DÓ e não se completa a canção. 
         Aprendi com esse menino em não ficar batendo na mesma tecla, pois além de não compor nada, ainda corro o risco de destrui-la pra sempre.
(by Evandro Cattani)

O Camponês e a Menina-Sereia

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Este conto é dedicado a alguém muito especial.

Tem histórias que parecem irreais, mas aconteceram de verdade. Conta-se que um camponês, de olhar discreto e vida simples, morava sozinho em uma casinha feita de madeira lascada, próxima a um lago de cor azul. Esse lago ligava-se ao mar por uma estreita passagem. O lago era de água doce e límpida. Próximo ao lago, o camponês fez um lindo banco de madeira, onde se sentava todas as manhãs para ver o nascer do sol.

Numa dessas manhãs, quando tudo parecia igual, surgiu a sua frente a menina mais linda que ele já havia visto. Não se têm palavras para descrever sua reação diante de tal beleza. E da mesma maneira que ele fixava o olhar nesta menina, ela fitava-o com um desejo incontrolável. Ficaram assim por alguns minutos. O camponês convidou-a para vir até seu casebre, mas a menina não poderia por estar presa ao mar. Era uma menina-sereia de cabelo claro, com olhos negros, sorriso grande, pele branca.

Ela encontrou o lago por acaso, e não podia ficar por muito tempo porque precisava do mar. E assim ela ficava o dia todo no mar e vinha pela manhã até o lago para rever o camponês. Esse por sua vez, passava a noite naquele banquinho de madeira, a espera da menina-sereia.

E nasceu assim um amor impossível, pois a menina-sereia não podia viver fora do mar e o camponês morreria se ao mar adentrasse.

E assim ficaram por algum tempo, até que a passagem entre o lago e o mar fechou-se e a menina-sereia ficou no mar para sempre.

Sabe-se que o camponês morava sozinho e aquém ao mundo porque perdeu sua amada no mar. Ela morreu pra salvar a vida do camponês. E só depois que a menina-sereia não veio mais ao lago que ele entendeu que a mulher que ele tanto amava, transformou-se naquela menina-sereia.

Então, todos os dias de sua vida, o camponês sentava ao lado do lago, em seu banquinho de madeira, esperando que a menina-sereia voltasse.

Para alguns o amor é impossível. Para outros é apenas improvável. Mas quando o improvável se torna impossível, então o impossível é apenas improvável e o amor acontece.

Falácia e Falésia

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De algumas histórias que conto, esse conto simplesmente me encanta. Diz-se o conto, que houve um tempo em que tudo se escolhia a esmo. Nesse tempo não havia rei, nem tampouco imperador, mas se tinha a estranha mania de sortear palavras para se resolver as contendas do povo.

Colocavam-se duas vasilhas ao centro das praças. Em uma punham-se verbos e na outra substantivos. Para qualquer situação o povo recorria às palavras. Funcionava assim: retirava-se primeiramente um verbo e em seguida um substantivo. A frase formada por essas duas palavras era aceita como a solução daquele problema.

Quando surgira e por quem fora idealizado tal fato ninguém sabe dizer, só o que sabemos é que o Professor Fagundes Teossócristo era quem cuidava da manutenção das palavras. Se necessário fosse substituía a palavra danificada por uma novinha.

O Professor Fagundes Teossócristo guardava todas as palavras existentes, separadas cada qual pela inicial e dispostas em caixas distintas. Em uma dessas idas para trocar as palavras das vasilhas da praça, deixou cair dentro de uma delas duas palavras começadas pela letra F. Sem saber quais caíram, deixou-as lá.

O problema foi que em uma contenda, dois cidadãos de distinta personalidade, obedecendo ao costume da época, foram até a praça para resolverem suas diferenças. O motivo de tal discussão surgira ao encontrarem simultaneamente uma moeda de ouro. Como não se podia dividir a moeda, a solução estaria nas vasilhas da praça.

O primeiro a retirar as palavras formou a frase: RECITAR FALÁCIA. O outro retirou a seguinte frase: CONSTRUIR FALÉSIA. Por mais incrível que possa ser, exatamente as duas palavras começadas com F que o Professor Fagundes Teossócristo deixou cair dentro das vasilhas.

Ambos contendores seguiram a risca as frases retiradas. O primeiro recitou falácia com tal ardor que se transformou no primeiro líder político daquele povo. O segundo entendeu que construir falésia, seria o mesmo que atacar verbalmente, de maneira constante e imprevisível, seu oponente. E assim desenvolveu a filosofia. A moeda ficou com o primeiro, usando o argumento que iria empregar a moeda em benfeitorias ao segundo.

Então assim formou-se a política através da FALÁCIA e a filosofia da FALÉSIA.

 

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